domingo, 27 de junho de 2021

Uma verdadeira história de amor

Por Marcos Araújo ​Era o ano de 1953. Governava o Brasil o populista Getúlio Vargas. O país tinha 53 milhões de habitantes. Pela exigência do crescimento econômico e da tendência nacionalista do chamado Estado Novo, estradas eram abertas. Pessoas às centenas eram contratadas para trabalharem naquilo que popularmente chamavam de rodagens. Aqui no Estado, o DER empreendia ligar Mossoró à Luis Gomes, numa estrada construída a braços humanos, sem qualquer aparato tecnológico ou mecânico. Foi por essa época que um magricelo acariense baixado há pouco tempo do Exército, com parentes fixados no Sítio Salva Vidas, listou-se entre os trabalhadores recrutados pelo Batalhão de Engenharia, a quem cabia a execução dessa obra. Acompanhado de três jegues, se aventurou nessa empreitada. Chapéu de palha, rosto curtido de sol, punha-se ele, com os seus companheiros de lida (os jumentos “brinquedo”, “bolinha” e “moreno”) a jogar barro e colocar água na pavimentação de uma pista que ligaria a cidade de Pau dos Ferros à José da Penha. Mal sabia ele que Deus, por desígnios da arquitetura celestial, empreendia ligar dois corações. ​Não muito distante do local de trabalho daquele jovem, morava uma senhorita de sorriso largo, faceira, recém-chegada de uma temporada de estudos na cidade de Mossoró. Seu trabalho também era intenso, auxiliando o seu pai e sua mãe nas lidas do campo e do gado. ​À noite e nos finais de semana, jovens de toda a região se dirigiam ao Terreiro de seu Augusto Holanda, Padrinho daquela moça, onde aconteciam animadas “valsas”. Em companhia de João de Peba e de Arimatéia, o jovem acariense dava uma de seresteiro, querendo engalanar-se para as incautas moças ouvintes. Foi por ali que se conheceram e às escondidas começaram um namoro. Ciosos de suas diferenças, apadrinharam-se de um rapaz paraplégico (Antídio Gurjão) para servir de mensageiro das juras e dos escritos de amor. Na cadeira de rodas do paraplégico, ou entre os seus dedos, eram deixados bilhetes um a outro destinados. Este arroubo juvenil durou por mais de um ano. ​Numa certa noite, entenderam que não era possível mais sufocar o sentimento e, mesmo com a reprovação do pai dela, deveriam se unir. Foi preparada a fuga. Como a canção que ele tantas vezes entoara, numa noite de luar encantador, madrugada afora, rumaram ao desconhecido, mão na mão, e um destino incerto a depender apenas do amor e da paixão. No bolso do trabalhador fujão, apenas uns trocados. Nas coisas da moça, duas mudas de roupas. ​Foi no Catolezinho, proximidades da cidade de José da Penha, que o casal foi encontrar guarida e abrigo amigo. Se impensado foi o gesto, retorno não mais haveria. Numa cerimônia simples, na tarde do dia 27 de abril de 1955, na Igreja de São João Batista, na cidade de Riacho de Santana, fizeram juras sacramentais de um amor recíproco. Incompreendidos pela fuga e o casamento às escondidas, sofreram os augúrios de lutarem contra o rigor do pai da noiva, que rejeitava a união da filha a um homem desconhecido. Não arrefeceram... O amor era maior do que a intransigência de “Seu” Raimundo Rodrigues. ​Ele, um boêmio e cantor nato, sábio e à frente do seu tempo, anuiu à vanguarda da esposa em independência no pensamento e liberdade de mando doméstico. Tiveram nove filhos, que por sua vez geraram perto de 40 netos. Os filhos foram educados entre sermões e cordadas no “lombo”, para quando a palavra não mais surtia efeito. Com os netos, foram lenientes. Sempre foram muito falantes e interativos dentro – e fora – de casa. Já idosos e confinados, implicavam um com o outro até por distração. No jogo de cartas para passar o tempo, se acusavam reciprocamente de “roubar” no jogo. ​Essa “aventura” de amor já se mantém há 67 anos. Não foi possível comemorar (e para eles, relembrar) a data pela primeira vez em todo esse tempo. Ela vinha padecendo de Alzheimer, em progresso lento, conservando reservada lucidez. Ele tinha muita saúde, até que sofreu um AVC vésperas da data-aniversário de casamento, comprometendo sua cognição, fala e atividade motora. Agora, convivem e coexistem quase sem palavras. O mutismo de um, adoece ainda mais o outro. Ela queixa-se o tempo todo da doença que o torna indiferente. Ele, acompanha as reclamações com o seu olhar compreensivo de um eterno apaixonado. A enfermidade não suprimiu a consciência da dependência sentimental. Ainda há brilho e luz na troca de olhares que só o amor proporciona. Como filho, vivenciei algumas brigas entre eles, o que é perfeitamente natural. Como vivente nessa experiencia humana, nunca testemunhei amor tão intenso quanto ao deles dois, meus pais, Ary e Clotilde, que protagonizaram (e ainda, relativamente, protagonizam!) uma verdadeira história de amor.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

NOVOS ARES

Vanda Maria Jacinto Escritora, autora do livro Rabiscando os caminhos da prosa v.m.j@hotmail.com Não sei se acontece também com você, mas, quando atinjo um grau insustentável de rotina, procuro logo atalhos que me levem para rumos diferentes. A rotina é algo terrível que nos deixa apáticos ou facilmente irritáveis e chatos. Pelo menos, comigo é assim. Nada me satisfaz. E tem mais: nem sempre funciona buscar alento nas atividades dentro de quatro paredes. Para resolver os problemas, só mesmo saindo de casa por algum tempo. Assim, uma manhã na praia ou mesmo uma visita relâmpago pelas cidades vizinhas pode sanar, ainda que temporariamente, a minha inquietação. Mas pode ser uma viagem mais longa, como as que faço, vez por outra, para Natal – cidade que amo de paixão. Tudo nela me encanta. Com especialidade, a Praia de Ponta Negra, mesmo sem poder subir na Careca do Morro… Ou então, o jeito estranho da fala do natalense. Espero que você entenda, ‘visse’? Talvez, por ter sido a primeira cidade onde morei aqui no Rio Grande do Norte – sabe aquele amor à primeira vista? Foi mais ou menos assim. Voltando ao assunto. Pode parecer estranho, mas é incrível como a rotina nos acompanha como a própria sombra… Cheguei quinta-feira. Hoje é segunda, entretanto, acredite, já estou louca para voltar. Atribuo ao fato de ter ficado dentro do apartamento o tempo todo. Às vezes, chego a pensar que sou hiperativa, não é possível que não. Infelizmente, não posso voltar agora, sem que resolva uns probleminhas simples, porém, é necessário que sejam sanados. Preciso me conter. Vou ter que rever meus itinerários, já que ficarei por aqui mais do que o previsto. Bem que poderia ficar alguns dias sem um esquema a seguir. Não sei se consigo porque rotina é assim, chega sem aviso prévio e, quando você se dá conta, já está tudo dentro da nova programação. Embora a previsão hoje para o clima seja de temporais com relâmpagos e temperatura máxima de 26 graus, o sol já despontou radiante. A melhor pedida ainda é procurar uma praia deserta para passar o tempo, haja vista a secretária vir hoje para uma faxina, daí nada mais correto do que debandar. Quem sabe, ir lá pelos lados de Tabatinga, relembrar o tempo em que ia com os filhos, ainda pequenos… Só em pensar já estou me sentindo feliz. Ainda bem que trouxe roupas de banho. Aprendi com a minha mãe que uma mulher precavida vale por mil. Acredito piamente na máxima. Por isso, arrumo a bagagem com quinze dias de antecipação da viagem. Não suporto precisar de algo no percurso e não encontrar. Melhor apertar o passo antes que desabe o bendito temporal. Vamos lá. Bagagem para o passeio matinal: máscara, álcool em gel, squeeze, toalha, protetor solar, escova de cabelo, salgadinhos, chocolate e um olhar expectante para captar toda beleza possível. Sim, mudanças de rumos nos últimos instantes... Iremos lá para as bandas do norte – Punaú… Não conheço, não que lembre. Novos ares não combinam com velhas rotinas. Portanto, ela não cabe nessa bagagem. Pegando a estrada em 3, 2, 1...

quarta-feira, 17 de março de 2021

PATRONOS DE MOSSORÓ

 



     O pesquisador e escritor Lindomarcos Faustino está lançando o seu 25º livro - PATRONOS DE MOSSORÓ - Vol I e Vol II, dois livros de uma vez, onde traz os patronos das avenidas, ruas, centros de saúde, hospitais, prédios públicos, praças, etc.   
     São mais de mil páginas para vque o leitor tenha em mãos tudo de Mossoró.
      Adquira já seus exemplares, num investimento de R$ 140,00 reais através do whatsapp de Lindomarcos: 84 - 98811.9244. 

quarta-feira, 10 de março de 2021

MULHERES NA PANDEMIA

 


Por Ana Medeiros

        Falar que a mulher é frágil, não tem lógica. A mulher é guerreira por excelência, já nasce com a missão de ir à luta. Quando feliz, compartilha e comemora, porém, se o problema é grave como esse que nos assola, perde o sono, ajoelha, reza, ora e chora. Tudo o faz discretamente, sem causar pânico ou alarde, mesmo porque a denominaram pilar que sustenta a construção. 
      Ah! Mas quantos pensamentos passa pela sua cabeça? Precisa encontrar soluções, pois tem lá um inimigo que rodeia  a sua casa,  sua família, há também um esposo desempregado ou simplesmente não há esposo, é tão-somente ela com um fardo a carregar. 
      Tem filho adolescente ou não, porém, totalmente inconsequente, que entra e sai, não se protege, coloca em risco a vida de avós, pais e a sua própria. Ela preocupa-se com a contaminação, pois não tem condição, teme por sua vida e, mais ainda, por deixar sua prole sem proteção. Até nessas horas, seu pensamento em relação a si mesma é egoísta. Família sempre em primeiro lugar. Crianças sem escola. Aulas, só remotas, mas, como acompanhá-las? Se falta até alimentação...
      Como pagar uma internet? E quando consegue, como acompanhar os filhos? Se tem que trabalhar... É pai e mãe em tempo integral. O medo a apavora ao tomar ônibus, trem ou metrô lotado, porém, se arriscar é preciso. Tem contas a pagar.
       A saúde, ninguém sabe a quantas anda, tendo em vista que seus exames de rotinas - taxas, prevenções, diabetes - foram mais uma vez adiados. Não há tempo para isso agora, tudo fica em segundo plano mais uma vez. O motivo é a pandemia. 
       Em alguns casos o companheiro até existe, tem condições financeiras, mas diante da situação, tudo mudou de repente. O esposo não se vira sozinho, saindo de fininho, deixando para ela os problemas e exigindo soluções.
        A mulher tem o dom de carregar o mundo nas costas, achando pouco os seus problemas, chama para si os dos outros. Com seu coração de manteiga, preocupa-se com o vizinho, se tem criança com fome, se estão jogadas na rua ou fora da escola. Toma para si as dores de outra Maria que chora, porque mulher é feita de sentimentos, não importa se é doutora, professora, frentista, poetisa, diarista. 
        Enfim, não tem raça, cor religião ou classe social, somos todas iguais, guerreiras por natureza, mestras por convicção e leoas  na hora de defender nossos filhos e nossa sobrevivência. Somos incondicionais  no amor materno. Hoje já escalamos alguns degraus, já não somos submissas, porém, falta muito para chegarmos ao topo.  
        Ainda existem mulheres escravizadas, abusadas, maltratadas, desvalorizadas  e assassinadas  em nome do machismo e crueldade masculina, pois, ainda não se deram conta que lugar de mulher é em qualquer lugar, é onde ela quiser.
        Minha homenagem individual e coletiva a todas nós, mulheres, mães, avós, filhas, netas, amigas, vizinhas, pobres, ricas, bem sucedidas, famosas, mulheres dos morros, comunidades, sítios, sertões, cidades, litorais ou de qualquer parte.
        Que todas nós possamos nos juntar em uma corrente de fé, sonhos e esperanças. Lembre-se, não somos sexo frágil,  também não somos rochas o tempo inteiro. Somos amantes, amigas, companheiras que choram, sofrem e se desesperam, caem, mas consegue levantar, secar as lágrimas e seguir nesta difícil travessia.             Lidamos com a vida e  a morte no nosso dia a dia, porque somos simplesmente as mulheres da pandemia.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

LIVRO SOBRE O TRIO MOSSORÓ


    
  Minha História: de Oseas Lopes, Trio Mossoró a Carlos André.   
 Autores: Oseas Carlos Andre, Almir Nogueira e Lúcia Rocha


Entrevista de Lúcia Rocha, co-autora, a Mário Gerson, do caderno cultural da Gazeta do Oeste, Mossoró, em junho de 2014, por ocasião do lançamento do livro Minha História: de Oseas Lopes a Carlos André, em co-autoria com Oseas Lopes e Almir Nogueira. Livro com 212 páginas, publicado pela Fundação Vingt-un Rosado e faz parte da Coleção Mossoroense, com o apoio da COSERN, Petrobras, Governo do Estado do Rio Grande do Norte, Lei Câmara Cascudo e Governo Federal.   

              

Como começou a ideia do livro?

Quando produzi o programa Mossoró de Todos os Tempos, vi que Oseas Lopes era dono de uma trajetória de sucesso na música  brasileira, como cantor, compositor e produtor  musical, incluindo dentre seus trabalhos como produtor, grandes intérpretes, a começar pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Fagner, dentre outros, algo que eu desconhecia. Como jornalista e me achando uma pessoa bem informada, que não sabia desse feito dele, passei a incentivá-lo a escrever sua história. Fui surpreendida também com a confissão dele, de que um primo meu, o radialista Canindé Alves, havia sido seu descobridor, aquele que ouviu sua voz enquanto passava numa rua e o convidou para fazer um show no aniversário da Rádio Tapuyo. Oseas era apenas um rapaz de dezessete anos de idade, pintor de carroceria de caminhão, que cantava enquanto exercia sua atividade profissional. Esse fato é excepcional. E único.  

Você já vinha estudando o assunto ou a pesquisa tomou ainda mais forma quando da proposta em ajudá-lo na confecção da obra?

Mesmo morando em São Paulo sempre procurei ler tudo a respeito da terra e do Nordeste. Fora isso, viajava constantemente por todo o país, acompanhando artistas, primeiro Mara, depois a banda Raça Negra e testemunhei o quanto o forró é executado em emissoras de
 rádio. Uma vez, entrando na Rádio Farroupilha, a maior audiência de Porto Alegre estava tocando Eliane, a rainha do forró. Fiquei surpresa.   Em São Paulo, frequento até hoje o Centro de Tradições Nordestinas, que é um espaço enorme, que cabe mais de dez mil pessoas, uma espécie de recanto do Nordeste, onde a gente encontra o melhor da gastronomia nordestina e ouve o melhor da música nordestina, lá a música do Trio Mossoró é executada por outras bandas, por exemplo. Conheço quase todo o repertório do Trio
Mossoró e lia tudo a respeito dele, como fã. Oseas Lopes me era familiar pelo fato de que tocou e cantou na casa do meu avô materno, sanfoneiro, quando eu tinha apenas cinco anos de idade e essa imagem é bem presente em minha vida e na de primos e tios que lá estavam. Foi levado por Canindé Alves, que queria fazer um agrado ao avô, à época, com mais de oitenta anos de idade. Então, desde criança trago essa coisa de música, sempre fui ligada tenho como referência meu avô, que tocava e cantava o repertório de Luiz Gonzaga. Profissionalmente, a partir desse contato para a produção e gravação do Mossoró de Todos os Tempos e agora organizando a história de Oseas e de seus irmãos, Hermelinda e João Batista - João Mossoró - surpreendi-me com o volume de informações que encontrei nas redes sociais, no Google, em sites e blogs especializados em música regional e até mesmo em livros, onde eles têm um lugar de destaque, como pioneiros do ritmo forró de boa qualidade na região Sudeste, repertório com grandes compositores, como João do Vale,  ainda hoje tido como um dos maiores compositores que este país já teve e foi João do Vale o padrinho do primeiro LP do trio, ele foi aquele que pegou Oseas pelo braço e foi atrás de gravadora, enfim. Se não fosse o encontro com João do Vale durante uma entrevista numa rádio, certamente não haveria história para contar.   

Como está sendo esta nova experiência?

      Por diversas vezes Oseas me chamou para ajudá-lo na feitura desse livro, eu dizia a ele, como digo a outros mossoroenses de destaque lá fora, vão escrevendo, vão se lembrando do que passaram e coloquem no papel, por enquanto estou ocupada com outros trabalhos, não desmerecendo nenhum talento da terra, lógico, mas como profissional tenho compromissos com clientes em São Paulo, para onde me mudei no inicio de 1991, então, são mais de vinte anos de convivência e relacionamento profissional com pessoas que contam com o meu trabalho e preciso sobreviver na profissão que escolhi para não ser mais um jornalista reclamando de má remuneração. De lá para cá, tudo o que fiz relacionado a Mossoró, foi muito mais na base da paixão pelas coisas da terra do que pela sobrevivência profissional. Então, Oseas foi escrevendo ele mesmo sua trajetória, já que faz uso do computador para troca de mensagens e a gente faz isso desde 2006, quase que diariamente. Em dezembro, eu estava fora quando o professor e escritor Almir Nogueira me ligou convidando-me a fazer parte do projeto do livro de Oseas. Naquele momento aceitei, passei umas orientações para Almir sobre a logística desse trabalho, a ser desenvolvido por nós três, no que vem dando certo. Em meados de janeiro quando retornei a Mossoró, comecei a organizar o texto, pois Oseas é compositor e músico, não um escritor. E escrever livros é diferente, ele sabe fazer música. Eu, não. Sei escrever livros. Tem jornalista que escreve maravilhosamente bem, mas se não estudar, se não capacitar para escrever livros, não será um bom escritor. O leitor de livro é mais exigente do que o leitor de jornal. Então, o escritor tem que ter um bom vocabulário, ser um bom leitor. O professor Almir é responsável por todo o material gráfico do que foi produzido por Oseas Lopes, como cantor, compositor, produtor musical e passou a pesquisar, conseguir capas, fotos, enfim. Oseas sempre participando de tudo, numa troca de ideias e informações via e-mail. Nesse período esteve duas vezes em Mossoró, quando nos reuníamos o dia inteiro, almoçávamos, inclusive. Uma vez que o texto dele estava copidescado por mim, em ordem cronológica para melhor situar o leitor, para que este não se perdesse na história, passei a pesquisar e encontrei farto material publicado nos grandes jornais do Rio de Janeiro, fotos e fatos que aconteceram que nem Oseas lembrava mais, como por exemplo, a participação do Trio Mossoró no programa Os Trapalhões, onde atuou cantando uma música enquanto Didi e seus companheiros faziam uma bagunça em cena. Também descobri que a Rede Globo havia lançado uma série de LPs com a trilha sonora de Os Trapalhões e, para nossa surpresa, no primeiro LP, há uma faixa do Trio Mossoró e mais uma vez, Oseas não lembrava. Fora outras informações que completam a história dos três irmãos. Se não fosse esse trabalho de garimpar na internet e com contatos de Mossoró, Natal, São Paulo e Rio de Janeiro, jamais esse livro sairia completo. A gente corre até o risco de deixar de fora alguma informação relevante, como expliquei, na internet, há um volume imensurável de informações sobre os irmãos de Mossoró que no início dos anos 1960 ousaram levar o nosso forró para o Rio de Janeiro. À época, Oseas tinha vinte e um anos de idade, Hermelinda tinha quinze e João Batista, apenas treze anos. A irmã vai velha, Laurinha, também foi fazer companhia a eles e tomar conta do apartamento que o pai alugou e acompanhava os irmãos menores em shows e programas de rádio e televisão. 

Comente um pouco sobre o Trio Mossoró.

      O Trio Mossoró começou como que uma brincadeira aqui em Mossoró, a partir do convite de Canindé Alves para Oseas se apresentar na comemoração do primeiro aniversário da Rádio Tapuyo, em 1º de maio de 1956. Como se saiu bem, de tão aplaudido, logo foi contratado para ser cantor exclusivo da rádio, ou seja, não poderia cantar na concorrente Rádio Difusora, a pioneira da cidade, que tinha programas de auditório também. Oseas era filho de um despachante do porto de Areia Branca que era fã de Luiz Gonzaga e depois desse show na rádio, passou a investir no filho, comprou sanfona, arrumou professor e esse rapaz ousou partir para vôos mais altos, foi tentar a sorte no Rio de Janeiro, onde Luiz Gonzaga imperava no forró, ao lado de Marinês, de Campina Grande, ou seja, pessoas daqui do Nordeste que lá estavam se dando bem, isso motivou o rapaz que achava Mossoró pequeno para seus sonhos. Chegando ao Rio de Janeiro, passou a cantar em programas de auditório da Rádio Nacional e Rádio Mayrink Veiga. Ao sentir que estava na hora de chamar os irmãos, João e Hermelinda, com quem vinha se apresentando em Mossoró nos últimos tempos. Em seguida, encontrou em João do Vale, grande compositor maranhense, o padrinho que precisavam para gravar o primeiro disco e, com a música Carcará, que tempos depois lançou Maria Bethânia como cantora, eles atingiram o ápice da carreira, vencendo o Troféu Euterpe, então, a maior premiação da Música Popular Brasileira, num grande evento no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, ao lado de estrelas da MPB. Mossoró soube desse feito tempos depois, porque naqueles anos 1960, não havia a comunicação de hoje. O Trio Mossoró nunca contou com o trabalho de divulgação de uma assessoria de imprensa, algo raro naquele tempo. No início dos anos 1970, o forró foi perdendo espaço no Rio de Janeiro e em São Paulo para outros ritmos, como a Jovem Guarda, por exemplo. Então, o trio foi extinto, Oseas Lopes adotou o nome artístico de Carlos André e gravou um LP em 1974, que vendeu até hoje, mais de dois milhões de discos, com a música que ficou famosa como Quebra Mesa, ainda bastante executada em todo o Nordeste. Os outros irmão até hoje também cantam em carreira solo. Hermelinda chegou a gravar música romântica com o nome Ana Paula, mas voltou para o forró. João Batista adotou o nome João Mossoró e ficou no Rio de Janeiro, onde se apresenta cantando forró e fados portugueses. 

Qual a contribuição do trio para a música nordestina? Existe outra obra que fala sobre isso?

      Recentemente foi lançado o livro O Fole Roncou, de Carlos Marcello, o mesmo autor da biografia de Renato Russo. E o Trio Mossoró tem destaque com fotos dos integrantes e de algumas capas dos seus LPs, além de trinta páginas de texto dedicadas a trajetória deles. Esse livro conta toda a história do forró e já indico para quem gosta do gênero, é a maior prova de que o Trio Mossoró contribuiu para a música nordestina. O Dicionário Cravo Albim, de Música Popular Brasileira também registra a história dos irmãos mossoroenses e outras publicações nordestinas e do Rio Grande do Norte registram a contribuição deles, não somente como intérpretes, como compositores, pois todos os integrantes são compositores, por exemplo, João Mossoró tem letras lindas gravadas por artistas de relevância nacional. Hermelinda é autora de um grande sucesso de Elba Ramalho, como Toque de Fole, algo que eu não sabia, por exemplo. Os irmãos inspiraram outras bandas e trios no mesmo estilo musical, sem sombra de dúvidas e até mesmo a pessoas do sexo feminino, porque antes de Hermelinda passar a integrar o Trio Mossoró, o pai relutou, porque era do sexo feminino, no que Canindé Alves, que havia sugerido ela ingressar na carreira artística, na mesma hora demoveu seu Messias, porque Canindé alegou que sua então namorada Ivanilda Linhares, trabalhava com ele na rádio. E Hermelinda honrou sua família e a vida pessoal, pois era por demais assediada por outros artistas e apresentadores, mas nunca cedeu, nunca se envolveu com ninguém em troca de marketing de projeção pessoal. O autor de O Fole Roncou comenta esse assédio. Outra referência sobre o Trio Mossoró, é que Tom Jobim ouvia em casa o LP do Trio Mossoró e comentou com João do Vale que a melhor música que ele havia ouvido é A Lavadeira e o Lavrador, gravada pelos irmãos mossoroenses. Oseas encontrou Nana Caymmi num estúdio e esta se derreteu de elogios ao Trio Mossoró. Recentemente Kydelmir lançou livro sobre Luiz Gonzaga e o Rio Grande do Norte e, é claro, fala desse momento em que Oseas produziu o Rei do Baião, bem como quando Hermelinda e João o acompanharam em alguns shows, antes de sair o primeiro LP do Trio Mossoró. Outro fato interessante, é que a música do Trio Mossoró era executada na França. Jaime Hipólito confessou a Oseas que ouviu numa rádio de Paris.              

Quem está envolvido no projeto do livro, fora você e Oseas?

      É o professor Almir Nogueira, diretor da Biblioteca Municipal Ney Pontes, historiador, autor de vários livros sobre Mossoró. Agora que conclui a minha parte, ele está já envolvido com a diagramação e supervisionando tudo, desde capa, legendas das fotos e tudo o que envolve a parte gráfica. Oseas é nosso parceiro e é bom trabalhar com ele, obediente, é consciente que tem uma bela história e que ela está em boas mãos. Mas é chorão para falar de momentos que quer esquecer ou quando lembra da família que tanto colaborou para o sucesso deles, os pais e irmãos.  


Pretende lançar quando? Como?

       Essa parte sobre lançamento está, especialmente, sob a responsabilidade de Almir. Como eu disse no início, sou bastante ocupada com outras tarefas até fora do estado, meu compromisso com eles foi a parte do texto, organizar, pesquisar e dar o texto final. Mas acredito que no final de maio, antes mesmo do evento Mossoró Cidade Junina. Porque sugeri a Oseas fazer um lançamento durante todo o mês de junho, nos grandes eventos juninos do Nordeste. Como ele mora em Recife, poderá aproveitar o calendário de eventos juninos em Pernambuco, na capital e interior e estados vizinhos, como Campina Grande, Assú, Fortaleza, enfim, onde houver um evento público em que possa encaixar na programação, seria muito bom que ali estivesse ele com disposição para sessões de autógrafos. Depois vamos planejar lançamentos no Centro de Tradições Nordestinas, de São Paulo e Rio de Janeiro. Em agosto, Oseas estará participando juntamente com Carlos Marcello, autor de O Fole Roncou, da Feira do Livro de Mossoró, no que vai enriquecer o conteúdo desta feira, isso me agradou bastante. Talvez seja um momento único na vida de Oseas onde a cidade poderá valorizar mais ainda o seu trabalho, o seu histórico, pois o rádio de Mossoró o prestigia bastante. Talvez Oseas seja um dos poucos talentos musicais deste país onde sua música seja executada com freqüência em sua terra natal, algo incomum em outras cidades. Como boa ouvinte de rádio posso garantir que não há um dia em que eu não ouça a voz de Oseas Lopes, seja no Trio Mossoró ou como Carlos André. Mesmo que eu esteja ausente da cidade, pois acompanho a programação local através do Iphone, onde quer que esteja.        

Você acredita que Mossoró reconheceu o valor desse trio?

        Na medida em que a cidade tinha informações vindas do sucesso da região Sudeste, sim. Em 1965, a Rádio Rural trouxe os irmãos do Trio Mossoró, como celebridades, segundo Oseas. Eles vieram de avião, inclusive, ele trouxe a família, esposa e filhos, com todas as despesas pagas pela rádio, ficaram no melhor hotel da cidade, no caso, Esperança Palace Hotel.  Com certeza, o poder público da cidade recebeu melhor outros artistas, pois sabe-se de homenagens que foram feitas a artistas de outras cidades. Os integrantes do Trio Mossoró só vieram receber reconhecimento pelo poder público em 2009, através de projeto de uma vereadora que nem da cidade é, no caso a hoje prefeita Cláudia Regina.  A gente enxerga melhor o sucesso dos outros do que dos nossos conterrâneos, mesmo com toda tecnologia, com redes sociais, acho que hoje, Mossoró não sabe dos talentos da terra, não que não valorize. Mas a nossa imprensa só dá destaque quando alguém daqui chega a participar de um programa de televisão exibido em rede nacional, por exemplo. A Titina Medeiros, que fez sucesso na Globo, com uma novela recentemente é um exemplo claro. Precisou ir ao programa do Faustão para a imprensa de Natal chamar a atenção do poder público. Eu pergunto: onde estava a imprensa de Natal quando essa moça começou a se destacar em Natal, fazendo teatro? Por que chamar o poder público? A imprensa por si só pautando a moça, faria com que o poder público tomasse conhecimento desse talento. Enfim. Vi gente começar em São Paulo, ralar bastante, gente até do Nordeste e só merecer o destaque em sua cidade, quando não há mais nenhuma saída, a não ser reconhecer que são pessoas especiais, nasceram para a arte e assim seja. Não é uma situação de Mossoró. Há vinte anos, em Salvador, as rádios tocavam raramente Bethânia, Caetano e Gal, e quando tocavam, era sempre à noite. Precisou estourar o axé em São Paulo e Rio de Janeiro para a própria Bahia, que é um celeiro de talentos, passar a executar a música baiana. Dá gosto você estar em Salvador e encontrar um Compadre Washington guiando um Mercedes conversível, coisas que antes não se via, por exemplo. Quero ainda ver um Reynaldo Bessa ser reconhecido em sua cidade, prestigiado quando faz um show e a mídia divulga, repercute, dá espaço para ele. Em São Paulo, ele lota os espaços públicos e faz parte da agenda cultural da prefeitura. Sua música é executada em FMs que tocam MPB. Espero, sinceramente, que o mossoroense leia o nosso livro de Oseas Lopes e que saiba o quanto ele foi importante para a carreira de muita gente, inclusive.  Porque são essas pessoas que dizem em seus depoimentos.          

Comente um pouco sobre sua carreira

        Sou formada em Ciências Sociais na UERN e Comunicação Social na UFRN. Ainda  estudante de jornalismo tive experiência profissional fazendo reportagens especiais, no O Mossoroense e no extinto Dois Pontos, de Natal. Por causa do meu bom texto, fui chamada por Osair Vasconcelos, para a TV Cabugi. Ao final do curso, pedi demissão e Osair tentou me demover da ideia de ficar na Cabugi. Desembarquei no TJ Brasil, no SBT, em São Paulo. No TJ recebi um convite irrecusável para cuidar da carreira de Mara Maravilha e ser diretora de palco do programa dela, também no SBT. Foi tudo rápido e foi ótimo atuar no show business. Como jornalista, pude constatar que 80% do que é publicado sobre a indústria de entretenimento é fantasia, para não dizer, mentira. Dois anos depois, tive que dar um tempo e retornei a Mossoró para acompanhar tratamento médico de mamãe, que estava com depressão, à época. Em Mossoró, fui chamada para abrir a sucursal da TV Ponta Negra e capacitar os profissionais contratados. Oito meses depois, retornei para São Paulo, decidida em não mais trabalhar em regime de 24 horas, como vinha fazendo com Mara. Então, fui assessorar a banda Raça Negra, que à época vendia um milhão e meio de discos por ano. Uma experiência maravilhosa, onde comecei a pensar na possibilidade de escrever um livro com a história deles, muito bonita. Ainda devo esse livro a Luiz Carlos. A banda Raça Negra foi perdendo alguns componentes, então passei a acumular a assessoria de um empresário palestrante. Foi quando comecei a desenvolver no computador a história da empresa dele, de cosméticos. Ele só soube disso quando estava pronto, foi meu primeiro livro. Criei gosto pela coisa, participei de um curso para escritores e não perco as palestras de biógrafos na Bienal do Livro de São Paulo, nem na Feira do Livro de Mossoró. De lá para cá, venho escrevendo livros na condição de ghost writer - escritor fantasma - que me dá suporte financeiro. Desse empresário, já foram mais de dez livros sobre vendas e motivação. Faço isso como hobby, pois quando a gente faz o que gosta, tudo é lazer. Posso dizer que desde que me graduei em jornalismo nunca mais trabalhei, vivo eternamente de férias. Só sei que o povo não está de férias quando passo em frente a um colégio e vejo pais esperando os filhos. Retornando a Mossoró para acompanhar tratamento médico de mamãe - que tem síndrome de pânico - escrever livros passou a ser minha principal atividade profissional. Em Mossoró já escrevi alguns, o mais interessante foi o de um empresário que não quis lançar. A proposta dele foi deixar para os seus descendentes sua história. Ao final do trabalho, ele gostou tanto do resultado, que me gratificou com um cheque. Não me devia mais nada, mas fez questão. Para Mossoró, acho que é algo raro. Esse cliente é uma pessoa muito especial. Provou que é um grande empresário, que honra sua história de sucesso e pessoal. Este ano tenho mais dois livros a lançar, espero que um deles na próxima feira do livro. São projetos meus. Devo registrar que em 2005 lancei em São Paulo e em Mossoró, o Catadora de Sonhos, que sabe-se lá como, chegou na França e mereceu reportagem no Le Monde. Já recebi convite de três escolas, de São Paulo e Salvador para fazer uma nova edição de Catadora de Sonhos, numa linguagem infanto-juvenil, para ser adotado como livro didático. Ainda não consegui tempo e também não é fácil escrever para essa turma. Acho-me uma grande incentivadora de escritores. Participo do desenvolvimento de livros de algumas pessoas em São Paulo. Nos próximos dias encontrarei pessoalmente com cinco deles, mas esse trabalho a gente desenvolve pela internet, que é uma excelente ferramenta de trabalho.

Como Oséas está encarando relatar essa história de sua vida e, ao mesmo tempo, da vida do Trio Mossoró?

Acho que ele está vendo como uma oportunidade para contar aos seus conterrâneos o seu feito, de menino sonhador, quando morava na beira do rio Mossoró, onde funcionou há algum tempo o Colégio Geo. Houve momentos no livro em que mandei e-mails para Oseas, pedindo mais detalhes de alguns fatos que ele achava irrelevante, por exemplo, e que nos aprofundamos e rendeu bons capítulos. Observa-se que Oseas foge ao assunto família, acho que por causa de três tragédias que ele viveu. A mais conhecida foi com o irmão Cocota, que veio a ser assassinado com arma branca, aos vinte e poucos anos. Ele afirma que era o mais talentoso para a música, morto numa festa de despedida quando ia se juntar aos irmãos no Rio de Janeiro. Encontrei detalhes sobre esse assassinato em jornais da época e inclui, lógico. Na cabeça dele, essa história é dirigida para os conterrâneos, mas esse livro vai ter um público mais abrangente, em nível Nordeste e, por que não dizer, Brasil? Quem mais descreve sua trajetória são os amigos artistas que enviaram depoimentos, gente como Luiz Vieira, Michael Sullivan, Zé Messias, o jurado mais famoso do Brasil; Cláudio Fontana, Alcymar Monteiro, Fernando Mendes, Bartô Geleno, dentre outros. Fagner se dispôs a ler o livro para então escrever algo, sendo assim, irá prefaciar o livro, tem vínculos fortes com Oseas, já gravou música de sua autoria, Orós II. São pessoas para quem Oseas produziu discos e deu oportunidades em gravadoras, à época em que foi diretor delas.                

Considerações finais.

Em Mossoró e região, há muitas histórias interessantes que merecem o registro em livro, mas, infelizmente, as pessoas não valorizam o quanto deveriam. O poder público poderia também investir nisso, ou pelo menos, incentivar. Penso em desenvolver ao longo do tempo,
 outras biografias de gente de Mossoró ou que a adotou como sua cidade e aqui cresceu, desenvolveu-se e ganhou destaque profissional em alguma área. Gostaria muito de escrever a biografia de Bartô Galeno, por exemplo, a gente já vem há um tempinho conversando sobre isso. Mantenho sempre contato com ele e sei do seu sucesso a partir de São Paulo e Rio de Janeiro.   Gostaria de escrever sobre o ator Antonio Ysmael, bem como Elizeu Ventania. Porém, fica a pergunta: para quem vou vender o livro de Elizeu Ventania? Livro é caro, livro dá trabalho e, costumo dizer, livro pesa muito. Tente embarcar com uma caixa de livros para lançar em outra cidade e saberá. Lamento, profundamente, o momento que vem passando a Fundação Vingt-un Rosado, como lamento o acervo de Dorian e de Raibrito, homens que enquanto vidas tiveram, batalharam pela nossa cultura, nossa história, foram documentaristas e historiadores de um passado bem recente, deram sua contribuição e hoje ignorados, não apenas pelo poder público, mas pelos que fazem a cidade. Quantos já leram suas obras? São riquíssimas. Não me canso de relê-los. O livro Memórias de Um Retirante, de Raimundo Nonato, obra publicada por Vingt-un, é melhor do que Os Sertões e Vidas Secas, juntos. Essa falta de incentivo ao autor local desestimula o surgimento de novos pesquisadores e historiadores. No entanto, permanecem bem vivos no meu cotidiano, em minha biblioteca. Desenvolvi meu texto lendo Dorian Jorge Freire, algo que nenhuma faculdade ensina. Imagino como sua família abriu mão de um mínimo de conforto enquanto o pai colecionava livros caros.  Onde estão os livros de Dorian, a hemeroteca de Raibrito e a obra de Vingt-un, minha gente?   

Contatos com Lúcia Rocha, co-autora do livro: 84 - 99668.4906
E-mail: luciaro@uol.com.br
Instagram: @luciarochareal
Youtube: Lúcia Rocha Real
Facebook: Lúcia Rocha Real



                             Trio Mossoró com os co-autores Lúcia Rocha e Almir Nogueira

 

domingo, 24 de janeiro de 2021

ACJUS COMEMORA VITÓRIA DA CIÊNCIA




 

Por Wellington Barreto*

      Surge uma luz no fim do túnel com a chegada e início da aplicação das vacinas Coronavac /Butantan e AstraZeneca/ Oxford/Fio Cruz. A ciência falou mais alto que o negacionismo. Vitória do Instituto Butantan, da Fiocruz e do Sistema Único de Saúde. Vitória do povo brasileiro que apoia majoritariamente a vacinação como esperança do novo amanhã.  
      O desafio prossegue, em múltiplas esferas. Não será breve nem fácil. Mas fora dado mais um novo e grandioso passo.
      Nesse sentido, Renovamos o aplauso à comunidade científica e aos profissionais da saúde que estão envolvidos no combate à pandemia.


A ACJUS tentará audiência com outras autoridades

       A diretoria da ACJUS - Academia de Ciências Jurídicas e Sociais - terá compromisso na segunda-feira, dia 25 de janeiro, no Gabinete da Prefeitura quando protocolará ofício solicitando audiência com o Prefeito Alisson Bezerra.
       No momento que recebermos a confirmação da audiência, a diretoria se fará presente e apresentará pauta de reivindicações com sugestão de parcerias importantes para a coletividade cultural e social. 
       O corpo acadêmico será comunicado, e dentro do possível, convidado a comparecer. 

Palácio Cultural será reaberto ao público 

       Funcionando com expediente interno, o PCAMMM será reaberto ao público a partir do dia 2 de fevereiro, no horário de 13h às 18. 

Assembleia virtual para definição de compromissos

       A diretoria prepara pauta a ser apresentada ao sodalício em breve, quando trataremos das ações que serão desenvolvidas a partir do início do ano acadêmico. Claro que estamos analisando a situação sanitária do país, principalmente a evolução da vacinação já que o nosso corpo acadêmico em sua maioria é do grupo de risco. A ACJUS segue orientação do Colegiado Nacional quanto a esse momento delicado que estamos presenciando. 

A semana de homenagens 

        A semana toda o confrade Sátiro Cavalcanti Dantas foi parabenizado e aclamado pela sociedade mossoroense e potiguar. Homenagens mais do que merecidas. 
        Na próxima semana teremos o aniversário de outras personalidades com assento em uma de nossa cadeiras. Zélia Macedo Heronildes, com certeza também será muito cumprimentada por ser um orgulho da nossa instituição e da nossa coletividade. 

Felipe Caetano, em memória.

       Atuei ao lado do professor Felipe Caetano na APM – Associação dos Professores de Mossoró – isso nos idos de 1983, ainda durante o regime de exceção. Ele, muito exigente no cumprimento das tarefas. 
        Um dos mais belos projetos que realizamos foi a participação dos alunos na construção do muro da sede da APM – hoje SINTERN.
        Foi um tempo difícil, com grandes confrontos políticos entre os educadores e os Governos autoritários, com grandes vitórias da nossa categoria.
        Nesse caminho de perdas irreparáveis, lamentavelmente a COVID-19, nos privou da inteligência de Felipe. Mossoró ficou menor.

*Presidente da ACJUS

sábado, 23 de janeiro de 2021

GENILDO COSTA NA PAPANGU



 Por Túlio Ratto

Não teve como não recordar, em nossa estada em Tibau, neste período pós-réveillon, do cantor Bartô Galeno cantando a música que nos remetea uma aventura dos domingos na ‘praia dos mossoroenses’. “Hoje é domingo e lá vou eu todo contente, com saudade de rever aquela gente, largo tudo na cidade e vou pro mar, Areia Branca até que é um bom lugar… Praia de Tibau…” E chegamos à praia de Barra, município de Grossos, após enfrentar cerca de 20 quilômetros de uma tábua de pirulitos, a RN Dehon Caenga, para bater um papo com o poeta e cantor Genildo Costa. Nota-se a grande alegria do poeta em receber nossa comitiva, não relaxando nos cuidados necessários ao momento em que vivemos de pandemia. Distanciamento social, uso de máscaras, um tubo de álcool em gel a tiracolo, um grande talento à nossa frente, uma cerveja já sendo consumida, o aviso de que os siris estavam sendo preparados para a recepção, e a partir daí, um olhar emocionado em cada lembrança de sua trajetória.

Genildo esteve até dezembro do ano de 2020 como secretário de Cultura do município de Grossos. Pergunto exatamente sobre como é estar nas duas pontas, como artista e como gestor. E se o artista realmente tem razão em reclamar cotidianamente. “De certa forma tem. Pela experiência vivida, acho que o artista também tem uma particularidade: o comodismo. Em não ser agente da sua própria história, de estar atento às coisas, nessa realidade complexa de hoje em dia. O radar tem que ficar ligado, afinal você tem que ser artista, microempreendedor, um indivíduo antenado com os editais”.


Ele fala em comodismo, a gente comenta a vagabundagem que aconteceu em algumas cidades do RN, quando secretários de cultura devolveram o dinheiro da Lei Aldir Blanc por falta de projetos.

Eu estive quatro anos à frente da cultura de Grossos, quatro anos de luta, de sonhos, de utopia. Jamais na minha vida eu poderia renunciar ao chamamento da minha cidade, da minha terra, a que me viu crescer, que me deu régua e compasso da forma mais bonita possível. Neste segundo momento, confesso que o aprendizado foi bem maior. A primeira vez foi entre os anos de 2001 e 2004, que era na gestão do prefeito João Dehon, do Partido dos Trabalhadores. Começamos aqui quando nem existia secretaria, era apenas um departamento de cultura. Conseguimos naquela época, através da Funarte, mesmo que timidamente, a formatação, digamos assim, da banda de música do município. Muita gente não sabe, mas todas as cidades do Brasil recebiam e ainda recebem kits para banda de música. E muitas delas não conseguem. Acho que naquele momento eu comecei a acreditar que podia fazer mais, podia fazer acontecer. Mas, o grande problema é que a cultura no Brasil sempre foi hostilizada, está sempre em décimo plano, tipo “se sobrar algo eles encaminham para a pasta da cultura”. Aqui, agora, não deixei voltar dinheiro, usamos tudo da Lei Aldir Blanc que veio para Grossos. Eu diria que quando deixam voltar dinheiro é por falta de espírito público associado à ausência de gestão pública. Porque todo ente, politicamente falando, as prefeituras do Brasil receberam ao todo dois bilhões de reais, uma quantia significativa, um orçamento significativo, que não caiu do céu. Foi uma luta travada no congresso para que chegássemos a dizer: “A cidade de Grossos, pela primeira vez, depois de 67 anos de emancipação política, nunca viveu um momento histórico tão importante, de ter orçamento com foco na cultura. Nunca teve. E eu estou apenas reproduzindo o que os artistas revelaram e confidenciaram a mim. A cidade sabe disso, nunca tivemos, muito pelo contrário, sempre vivemos sob o ciclo da piedade: “Vai lá no prefeito Túlio, que ele pode arranjar R$ 100 reais; vai lá no Sacolão, que ele pode arrumar R$ 50”.

“Mas, o grande problema é que a cultura no Brasil sempre foi hostilizada, está sempre em décimo plano, tipo “se sobrar algo eles encaminham para a pasta da cultura”


O poeta-gestor complementa enaltecendo seu trabalho como secretário: “Isso nos dá a certeza de que, primeiro, falta um elemento necessariamente possível, se você quer ser gestor público, eu diria que esse elemento seria comunicação. Eu tive duas alternativas, fiquei até temeroso, e pensei: “Meu Deus, são 93 mil reais? Acredito que é um orçamento razoável, mas também acho que eu tenho que ter o mínimo de atalhos possíveis para que esse dinheiro não volte, a gente não passe vergonha” e que a cidade futuramente, em um curto espaço de tempo, possa ficar inadimplente. Qual foi a minha primeira iniciativa? Ser igual àquele personagem de Chico Anysio que dizia “se sei digo que sei, se não sei digo que não sei e pronto”. Ter humildade. E eu tive o privilégio de ter uma criatura como o meu amigo de estrada, do teatro, de música, o teatrólogo Berg Bezerra, diretor da Companhia Cidade do Rio de Teatro, de Janduís. Ele não mediu esforços para nos ajudar. Veio para nossa cidade e criou todos os caminhos da legalidade, todos os mecanismos foram criados. E quando as pessoas vieram entender que aquilo tudo era real, muitos perderam, pois achavam que era apenas discurso. As portas estavam abertas, todas as reuniões que fizemos eu achava até que era impossível de fazer. Eu me perguntava: “Como é que você é um gestor e não se comunica?” Por intermédio de alguns meios de comunicação aqui de Grossos, conseguimos chegar ao artista. Eu queria chegar a todos. Mas, infelizmente, ainda tive o desprazer de contar muitas vezes com a indiferença deles. Convidava e eles não compareciam. Não fui nenhum arauto de uma coisa que não era minha, eu estava apenas tratando de uma coisa que era de todos. Se não quis vir, desculpe. Incomodei várias vezes o pessoal da rádio, enviava áudio, falava ao vivo sobre as pautas…

Quais os principais projetos aprovados pela Lei Aldir aqui em Grossos?

Nós publicamos dois editais, o de prêmios e o de subsídios. Com um grande problema, a cidade estava inadimplente. A cidade é um espaço de visionários, a cidade não tem parâmetros de funcionalidade. Se tem uma associação, é ilegal, se tem um grupo um empreendedor é ilegal. E se tem, não paga ao Sebrae; não tem condições. Hoje, por forças das circunstâncias, tem a Associação Cultural de Grossos, justamente onde o dinheiro foi depositado. Eu sei que existem outras associações, outros gargalos.

Quem conhece Genildo sabe que ele se emociona facilmente. Quando perguntamos sobre o legado que ele deixa para a Cultura de Grossos, foi como se ele respondesse a pergunta cantando a música Meu Brasil de canto a canto tem suor de nordestino. “É tipo trabalhar como gigante e ganhar como menino. A classe artística está cansada. A coisa se tornou tão cansativa… E não é só em Grossos que isso acontece. Nós, queiramos ou não, temos que respeitar esse tempo de brevidade, tudo passa e a gente não é mais aquele menino de 20 anos, que pega o violão e sai para a estrada, viver aquela coisa de sonhos, da aventura, não tem mais espaço para isso. O que estamos querendo agora, em nossas manhãs, é o sossego. Sou convicto que procurei ser, acima de tudo, transparente. Foi uma página construída com tranquilidade. Fiz o possível para que pudesse corresponder minimamente a essa cidade que me deu tudo, me deu régua, compasso, me deu a hora de chegar, me deu a hora de sair, e se eu tenho essa percepção de dizer e de externar minha gratidão por ser filho de Grossos. É muito orgulho, é algo indescritível esse sentimento de ser filho de Grossos. Por onde andei e passei visitando espaços privilegiados desse país, não foi porque eu pude ir não, foi porque fui chamado. E todas as vezes que estive aqui para assumir esse desafio, esse compromisso como gestor, muitas vezes subestimei a minha própria capacidade de ser artista. E eu tive que optar, pois aqui seria dedicação exclusiva. E sentia essa força quando recebia artistas que a mim tinham a hombridade de realizar algo e não se preocupar com o cachê. Você sabe que é difícil, você é meu amigo e eu não posso passar a vida toda puxando pelo seu braço com essa marca do “zero oitocentos”. Queira ou não, a gente capitaliza as coisas porque sabe que quando você faz do jeito que você imagina, que eu imaginei ser possível, e foi possível, eu saio com a certeza do dever cumprido.

“A cidade de grossos, pela primeira vez, depois de 67 anos de emancipação política, nunca viveu um momento histórico tão importante, de ter orçamento com foco na cultura”

Quais são os planos agora, Genildo?

Retomada da vida. Tenho outros horizontes, até porque fui de certa forma particularmente ingrato com o que eu construí. Chegou um momento que as pessoas até achavam que eu era simplesmente um visionário, um sonhador, utópico. Mas eu tenho hoje um acervo na minha casa, que eu construí com a minha família e criei meus filhos, em Mossoró. Tenho uma biblioteca e muita vontade de realizar agora um antigo sonho, que é doar essa biblioteca. Mas sempre tive receio de doar à pessoa errada. Tem que ser para alguém que tenha responsabilidade e seja minimamente cuidadoso. Cuidado de saber que por mais que subestimem os livros, a gente precisa ter aquela sensatez do Monteiro Lobato que dizia “não se constrói um país sem livros”. Vou levar para minha sepultura essa expressão tão rica. Estamos iniciando o projeto de uma página no YouTube, a “Quarta Alternativa”. Retomaremos alguns projetos na minha casa mesmo. Volto a dizer, as pessoas até não acreditavam que tudo que era real e quando caiu a ficha já não havia mais tempo para fazer o cadastro para participação no edital. Quando viram que o dinheiro já estava na conta de fulano, que 12 mil já estava disponível para o proponente, aí houve o choque. “Mas por que já recebeu? Ah, foi porque fulano procurou, estava atento. Ele estava com o grupo dele de capoeira com CNPJ, tudo arrumadinho”. Eu fiz muito esse discurso, até repetitivo, quando chamava as pessoas para a Casa de Cultura. Quando eu falava que o Plano Municipal de Cultura era uma política de Estado e não uma política de governo, e que a gente brigou para isso, mas me viam com incredulidade. Enfim, o plano foi aprovado. Se você andar de Porto do Mangue, nessa Costa Branca, até Icapuí, você pode perguntar: “Me diga, Porto do Mangue, você tem um plano de cultura?” Tem, não. E por que não tem? Primeiro, por ausência de espírito público, porque dá trabalho construir um plano cultural. Assessoria jurídica de prefeitura não quer ter trabalho. Falta interesse. Infelizmente. Chegamos ao ponto de Crispiniano Neto, presidente da Fundação José Augusto, em uma entrevista de rádio, dizer que “Genildo Costa estava cavando com as unhas”. Então eu sou um peba [risadas].