segunda-feira, 18 de maio de 2020

VAI DANDO PARA O GASTO



José Nicodemos
Por José Nicodemos 

     Impossível a crônica impessoal. Quem disse isso foi o mestre Rubem Braga, consolando a também cronista Clarice Lispector, quando ela lhe participou sua inquietação com o caráter pessoal de sua - dela - crônica. Ela escrevia, então, uma crônica semanal para os jovens - Amanhã, Última Hora e Jornal do Brasil - afora revistas.
     Na verdade, a crônica, todo mundo sabe disso, são flagrantes do cotidiano, e o lado pessoal do cronista naturalmente sempre aflora neste texto. Por mais esforço que faça, não há como evitá-lo. Bom, conta isso a formidável Clarice, quase diria 'gostosa', logo caí em mim e pulei o adjetivo, para não ser mal entendido. Mas que Clarice era charmosa e elegante, isso era.
    Sim, apenas a conhecia de retrato, aviso logo, também para que não se pense mal. Ora, se uma coisa há que não de sobra no mundo, é gente maldosa, gente tomada pelo prazer doentio de expor os outros ao ridículo. Pessoalmente, tenho horror a tais pessoas, e contra elas me acautelo, sem descuidar. Quis dizer isso, e está dito.
    Pois comecei a falar da inquietação de Clarice e agora, cronista pequeninho anônimo, falo no meu caso, se é que tenho esse direito. E é que também me ocorre muitas vezes encrencar com o caráter pessoal dos meus textos de jornal, a que ouso chamar de crônicas. Vá lá.
    Isso ou não, também não fazem tão feio, julgo eu, nesse universo da reprodução do cotidiano. Tem aí coisas piores, direi, e mesmo assim vão passando com aplausos de muita gente boa, e ainda, como é comum dizer, com direito a tapete vermelho. Não. Não estou a reclamar lugar nenhum em semelhante universo. Escrevo por necessidade de ganhar o sustento. Também sou cristão.
    Tem mais uma coisa, e é a necessidade que na    velhice tenho de exprimir-me no caminho de volta da vida, que são as lembranças e recordações. Quem que um dia não haverá de fazer esse caminho? Duvido. Ainda mesmo, creio eu, os mais indiferentes. É do caráter humano.   
     Finalmente, estou mesmo é a justificar o lado pessoal da  minha escritura diária, a partir daquilo que o mestre capixaba fez ver à gostosa - agora uso o termo - Clarice Lispector. Sem que dúvida nenhuma haja, a crônica impessoal é mesmo impossível: como em toda arte, pulsam-lhe as  naturais tensões da vida.
      Ainda, a meu favor, a clarividência de outro mestre, o mineiro Drummond, quando diz que de notícia e não notícia se faz a crônica. Estou dizendo que isso me facilita, se bem que não me favoreçam dons de imaginação. Mas, assim ou assado, vai dando para o gasto, que é como diz o povo. Ou eu acho assim, assumidamente.   


Fonte: Jornal de Fato

Sem comentários:

Enviar um comentário